Instituto Brasileiro de Museus

Museu da Abolição

Histórico do Sobrado Grande da Madalena

Fachada do Museu da Abolição

O MAB está situado em uma área privilegiada do Recife, mais especificamente no tradicional bairro da Madalena. Suas terras pertenciam, originalmente, ao fidalgo Duarte Coelho Pereira, Capitão Donatário da Capitania de Pernambuco, que as recebeu por meio da Carta de Doação de D. João III. Este Capitão Donatário, por sua vez, doou estas terras para seu cunhado Jerônimo de Albuquerque. Após a morte deste, seus filhos herdaram a propriedade e a venderam conforme interesses pessoais. Essa área foi no passado uma das melhores zonas produtoras de açúcar.

A região onde está localizado o atual bairro da Madalena foi vendida no séc. XVII a Pedro Afonso Duro, casado com Madalena Gonçalves, que fundou no local um engenho de açúcar. O engenho estava localizado à margem de uma das vias de acesso ao interior da capitania de Pernambuco, a Estrada Real, cujo trecho chamava-se Passagem da Madalena, referindo-se ao nome da proprietária deste engenho. A formação do bairro da Madalena está ligada principalmente à construção desse engenho, que servia de referência, na época, por sua imponente presença.

O engenho de açúcar estabelecido pelo fidalgo Pedro Afonso Duro e sua esposa Madalena Gonçalves foi vendido sucessivamente a vários proprietários que o mantiveram funcionando como engenho. O seu casarão era considerado um dos mais importantes da região no séc. XVII, e era conhecido como Sobrado Grande da Madalena. Durante as invasões holandesas foi, inclusive, transformado em estância fortificada para resistência aos invasores, sendo palco de lutas pela restauração pernambucana.

Com o passar dos anos, as terras desse engenho foram divididas em frações menores, que por sua vez eram vendidas e revendidas. Nasciam assim, no entorno do Sobrado Grande, novos sítios, que gradualmente foram sendo substituídos por residências, cada vez mais próximas umas das outras, constituindo definitivamente o Bairro da Madalena.

Fachada posterior do Sobrado em julho de 1958

No século XIX, o Sobrado Grande pertenceu ao 3º Barão de Goiana, João Joaquim da Cunha Rego Barros, tio e sogro do Conselheiro do Império, Senador, Ministro e Chefe do Gabinete Imperial, João Alfredo Corrêa de Oliveira, que recebeu anos mais tarde como herança esta imponente residência. Nessa época, o Sobrado passou a ser conhecido como o “Casarão de João Alfredo”. Assim como Joaquim Nabuco, João Alfredo ficou conhecido por ter tido participação política importante na luta pelo fim do sistema escravagista.

Na segunda metade do século XIX, o Casarão sofreu uma grande restauração, adaptando-se ao estilo neoclássico, vigente na época: revestimento de azulejos, esquadrias com bandeiras, sacadas de ferro forjado e modificações arquitetônicas lhe deram a configuração atual, voltando a ser conhecido como Sobrado Grande da Madalena.

 Em meio às novas residências e casarões de famílias abastadas que foram sendo erguidos no seu entorno, o Casarão da Madalena continuou sendo um prédio de destaque na paisagem do bairro, sobretudo pela sua imponência e volumetria.

Durante o período da II Guerra Mundial, o Sobrado Grande da Madalena foi ocupado por uma unidade do Exército Brasileiro. Em seguida, foi utilizado pela Cooperativa de Transportes João Alfredo e pela Companhia Pernambucana Autoviária Ltda, como garagem e oficina para conserto de ônibus. Por fim, abandonado e em péssimo estado de conservação, muitas famílias desabrigadas passaram a utilizar o imóvel como moradia.

Restauração do Sobrado. 1972. Acervo DPHAN.

Na década de 1950, surge a proposta de criação do Museu da Abolição e o local escolhido para sua sede foi o Casarão da Madalena onde teria vivido o abolicionista João Alfredo. Assim, consta do texto do Projeto de Lei n° 39, de 14.05.1954, encaminhado ao Senado Federal, que “se solicite à abertura de crédito necessário à aquisição do prédio onde residiu o Conselheiro João Alfredo, conhecido como Palacete da Madalena, para fazer adaptações e a instalação, nele, da Sede do Museu da Abolição”.

Atendendo a esta demanda, em 22 de dezembro de 1957, o Presidente Juscelino Kubitscheck criou o Museu da Abolição com Sede na Cidade do Recife, por meio da Lei Federal nº 3357, em homenagem aos abolicionistas pernambucanos João Alfredo e Joaquim Nabuco.

Em 1960, a Câmara Municipal do Recife aprovou Projeto de Lei nº 103, que estabeleceu como de utilidade pública a desapropriação do Sobrado Grande da Madalena com a finalidade de ser ali instalado o MAB.

A desapropriação foi efetivada através do Decreto Municipal nº 4514 de 30 de dezembro de 1961, sancionada pelo prefeito Miguel Arraes de Alencar, para a instalação do Museu, o qual passou a ser mantido pelo 1º Distrito da DPHAN – Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

As despesas para a desapropriação e restauração ficaram a cargo do Governo Federal. Para o cumprimento do estabelecido, a DPHAN, órgão responsabilizado pela manutenção e restauração do MAB, repassou à Prefeitura Municipal do Recife a quantia de Cr$ 6.000.000 (seis milhões de cruzeiros). Em 1964, ocorreu a emissão de posse do imóvel.

Jornal do Commercio de fev/2010

Em 28 de novembro de 1966, o valor cultural do Sobrado Grande da Madalena foi reconhecido e o edifício inscrito no Livro de Tombo (volume 1, folha 63, inscrição 389) pela DPHAN (atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como Patrimônio Nacional.

Inaugurado em 13 de maio de 1983, o Museu da Abolição por muitos anos, dividiu o casarão com a 5ª Superintendência Regional do Iphan (atual Superintendência do Iphan em Pernambuco). Somente a partir de janeiro de 2010, o edifício e suas dependências passam a ser totalmente ocupados pelo Museu da Abolição, que o transformou em local de destaque e interesse cultural, seja pela exposição das peças de seu acervo museológico, pela possibilidade de pesquisa em seu acervo bibliográfico, hemerográfico, fotográfico ou documental, pelas exposições temporárias que organiza ou recebe, seja pelos eventos que promove com a participação de estudantes, professores, pesquisadores, militantes da cultura afrodescendente e a população em geral.

Assim, a antiga residência do abolicionista João Alfredo terminou por se transformar em um local de reflexão, valorização, respeito, difusão e promoção da história e cultura afro-brasileira.